18 de maio de 2008

Investigação-Acção - Análise ao Tema 3



O termo investigação-acção foi apresentado por Kurt Lewin em 1946 no paper "Action Research and Minority Problems" (fonte http://en.wikipedia.org/wiki/Action_research).

A associação da investigação-acção ao paradigma qualitativo é inevitável, isto porque parte de um processo baseado na experiência e prática diária, seguindo o método indutivo, mas que não se preocupa meramente com a procura de descrever ou compreender os fenómenos. O grande objectivo da investigação-acção é a promoção de mudanças (Bogdan & Biklen, 1994) e de desenvolvimento social (Almeida & Freire, 2003) . Parece consensual que a investigação-acção parta de um problema, à semelhança de qualquer outro acto investigativo. A grande diferença, quando a comparamos com outro tipo de investigações, está na produção de informação e conhecimentos que permitam uma aplicação imediata no contexto (Arends, 2000).

Uma outra característica típica da investigação-acção diz respeito ao indivíduo que leva a cabo a investigação. Normalmente esta não é promovida pelos investigadores, mas sim pelas pessoas que, na sua actividade, se deparam com situações/problemas que precisam de ver resolvidas.

O processo da investigação-acção pode dividir-se em diferentes passos, mas na fase inicial é necessário colocar um problema prático, relativo às problemáticas e vivências diárias, e que não interfira em demasia com a actividade principal e que possa ser resolvido pela própria pessoa (com ou sem ajuda de terceiros). A partir daí dá-se um conjunto de actividades cíclicas que passam pela 1) planificação, 2) acção, 3) observação e 4) reflexão. Neste processo a recolha de informação válida é essencial porque é com base nessa informação que se vão tomar as decisões estratégicas na planificação. A recolha de informação dá-se no momento da observação. À medida que se vão resolvendo os problemas iniciais, durante a reflexão podemos ter duas hipóteses para dar continuidade ao ciclo: ou surge um novo problema na reflexão e partimos desse problema, ou então debruçamo-nos sobre outras questões que gostaríamos de ver resolvidas.

Um outro aspecto associado à investigação-acção está relacionado com a participação de outros membros. Como este tipo de investigação implica a mudança e o desenvolvimento social, obriga ao envolvimento dos diferentes elementos da comunidade visados na investigação. Por um lado, os dados recolhidos permitem maior consciência do problemas, por outro é suficiente motivador para que os diferentes indivíduos participem na investigação-acção. Bogdan e Biklen (1994) referem que neste tipo de investigação existem muitas coisas em jogo, nomeadamente a vida das pessoas, os empregos, as práticas injustas para com alguns, etc, o que obriga o investigador a "ser sistemático, completo e rigoroso na recolha de dados" (P. 299).

No campo educativo, quem desenvolve este tipo de metodologia, tem por hábito partilhar os resultados com os diferentes colegas, de modo a discutir os métodos de ensino praticados (Arends, 2000). Esta questão remete-nos para a ideia de escola reflexiva, mas não circunscrita à acção de apenas um ou outro elemento. A envolvência de todos os elementos da comunidade educativa é essencial, para que esta forma de pensar e de estar perante a educação seja eficaz no processo educativo.

Recursos usados:

http://www.moodle.univ-ab.pt/moodle/mod/resource/view.php?id=35592

Almeida, L. & Freire, T. (2003). Metodologia da Investigação em Psicologia e Educação. Braga: Psiquilibrios.

Arends, R. I. (2000). Aprender a ensinar. Lisboa: McGraw-Hill

Bogdan, R. & Biklen, S. (1994). Investigação Qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora.

15 de maio de 2008

Recolha de Dados - Análise ao Tema 2

Para a investigação podemos recorrer ao uso de várias técnicas para a recolha de dados. Aqui podemos encontrar métodos como a observação, a inquirição (onde se inserem os questionários e as entrevistas), a experimentação, análise de documentos, entre outras.

São vários os factores que nos levam à escolha de diferentes tipos de métodos, como tal, devemos conhecer o grau de abrangência de cada um, as suas vantagens e desvantagens e as condições que temos para pôr em prática o método mais adequado à investigação que estamos a conduzir.

Assim, à medida que avançamos com a parte inicial da investigação, vamos delineando o nosso plano de investigação, tendo em consideração as nossas limitações (quer temporais, quer metodológicas, quer amostrais), de modo a definirmos quais os métodos que poderão extrair o máximo de informação necessária para que façamos a análise mais correcta do problema que colocámos.

Ao longo do tema 2 analisaram-se duas técnicas de inquérito que têm um espectro muito alargado. De uma forma muito genérica, a diferença de base que encontramos entre a entrevista e o questionário prende-se com a maior ou menor directividade que cada um tem, como podermos analisar no próximo quadro.


Uma primeira conclusão que se pode tirar é que tanto a entrevista como o inquérito incidem sobre a linguagem, o que nos sugere algumas vantagens e desvantagens.

Relativamente à entrevista temos como grande vantagem, quando comparamos com o questionário, a possibilidade do entrevistador se adaptar ao entrevistado. Para além desta vantagem temos outras como: 1) a obtenção completa da informação que pretendemos; 2) conhecer o entrevistado; 3) avaliar a comunicação não verbal; 4) garantia de resposta por parte dos participantes. As desvantagens estão principalmente ao nível da análise directa da informação, isto é, quando queremos fazer uma análise de conteúdo (e não apenas descritiva) após a entrevista é necessário fazer a sua transcrição, categorização e codificação. Este é um processo longo, que exige muito tempo, nomeadamente no que se refere à entrevista propriamente dita. Por vezes é necessário entrevistar um bom número de indivíduos, o que leva ao aumento do tempo dispendido. Para além destas desvantagens, encontramos outras: 1) a inibição do entrevistado a questões delicadas; 2) a capacidade de verbalização do entrevistado; 3) as condições onde decorrem a entrevista podem ser prejudiciais, o que obriga à preocupação de encontrar um espaço confortável para ambos. Antigamente tínhamos como desvantagem a limitação dos intrumentos usados na entrevista (duração da fita das cassetes, por exemplo), contudo, hoje em dia as tecnologias que dispomos conseguem ultrapassar muitas destas limitações.

No que se refere ao questionário, temos como grande vantagem a abrangência do número de inquiridos. Para além disso, encontramos outras vantagens como: 1) a facilidade de análise dos dados; 2) o facto de ser um instrumento muito mais económico quando avaliamos o número de horas dispendido para a sua aplicação e análise e o número de inquiridos envolvidos no processo; 3) permite, com maior facilidade, a colocação de questões mais íntimas; 4) menor enviesamento nas respostas. Contudo, há um conjunto de desvantagens, mas aquela que denota maior preocupação diz respeito ao processo de construção do questionário que, para além de ser longa, não garante a total adaptação aos inquiridos: 1) não permite o esclarecimento de dúvidas nas questões colocadas; 2) o vocabulário do inquirido; 3) a taxa de retorno de respostas costuma ser baixa (o que obriga ao uso de estratégias que colmatem este problema); 4) a falta de controlo na condução das respostas; 5) o acréscimo de informação complementar.

Assim, verificamos que o segredo da entrevista reside no próprio entrevistador, enquanto que no questionário o segredo está na construção do mesmo. Em ambos os casos, a maior desvantagem prende-se com a garantia da veracidade das informações que foram recolhidas.

O uso de diferentes métodos que se complementem e que permitam retirar a informação necessária para responder ao problema que é colocado no início da investigação, parece ser uma tarefa árdua, na medida a que obriga ao conhecimento do uso dos mesmos, mas também ao seu domínio (ou então que haja alguém que domine essa técnica para a poder aplicar, contudo, isso obriga a que a pessoa também esteja por dentro da investigação).

Recursos usados:

Guide to the Design of Questionnaires

Interviewing in qualitative research

Almeida, L. & Freire, T. (2003). Metodologia da Investigação em Psicologia e Educação. Braga: Psiquilibrios.

Bogdan, R. & Biklen, S. (1994). Investigação Qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora.

Ghiglione, R. & Matalon, B. (2001). O Inquérito: teoria e prática. Oeiras: Celta Editora

10 de maio de 2008

Recolha de Dados - A Entrevista


A entrevista, à semelhança do questionário, é uma das técnicas de inquérito.

Ghiglione e Matalon (2001) referem que a entrevista é "uma conversa tendo em vista um objectivo" (p.65). Assim, na entrevista é estabelecida uma relação entre o entrevistador e o entrevistado que visa a obtenção de informação importante para a investigação, que permita a descrição dos fenómenos. Ora, a descrição de fenómenos é uma das características fundamentais nas abordagens qualitativas (Bogdan & Biklen, 1994). Apesar de não ser uma metodologia exclusiva da investigação qualitativa, associamos muitas vezes a entrevista à compreensão e descrição dos fenómenos.

Segundo Ghiglione e Matalon (2001) os objectivos investigativos da entrevista podem situar-se em 4 níveis diferentes:
1) Exploração (de algo que desconhecemos);
2) Aprofundamento (assuntos que necessitam de maior explicação para se entender a totalidade do seu fenómeno);
3) Verificação (domínios já suficientemente bem conhecidos que queremos verificar na sua aplicação e evolução em contextos diferentes);
4) Controlo (validação parcial dos resultados - aqui a entrevista não surge como método principal).

Tendo em consideração estes níveis, os mesmos autores identificam três tipos de entrevistas que procuram responder às necessidades da investigação.


Deste modo encontramos 3 tipos de entrevistas que visam objectivos diferentes e que se estruturam de forma distinta.

De um modo geral, a linguagem em qualquer tipo de entrevista deve ser acessível e com um tema estimulante para o entrevistado, de forma a recolher o máximo de informação possível. O entrevistador deve clarificar o que se pretende daquela entrevista, quer da parte do entrevistado, como também do próprio entrevistador. Assim, num primeiro momento é estabelecida uma relação entre ambos os lados, para que se possam iniciar as questões. Ainda relativamente ao entrevistador, este deve mostrar sempre uma postura neutra e de interesse pelo que é dito pelo entrevistado.

Na entrevista não directiva/livre, o investigador inicia com um tema geral, suficientemente ambíguo, para que o entrevistado explane todas as suas ideias. Aqui é bastante usada a reformulação e o parafraseamento, para dar continuidade ao discurso do entrevistado, mas também para que ele esclareça um ponto menos desenvolvido e para o entrevistador mostrar que está atento e interessado no discurso do entrevistado.

Na entrevista semi-directiva/semi-estruturada o entrevistador segue, de forma aleatória, um conjunto de questões provenientes de um quadro teórico, de modo a aprofundar ou ver a evolução daquele domínio na população que está a investigar. Assim, aquilo que destingue a entrevista não directiva da semi-directiva é a utilização constante do quadro teórico que usámos para a construção do guião de entrevista. Aqui o discurso e o pensamento do entrevistado pode ser quebrado com uma outra questão, de modo a balizar a informação que se pretende recolher. Por outro lado o grau de ambiguidade é mais reduzido do que nas entrevistas não directivas.

Finalmente, na entrevista directiva/estruturada, há um conjunto de questões estandartizadas, colocadas numa ordem específica que visam a análise de objectivos muito específicos da investigação, de modo a que haja um grau de ambiguidade muito reduzido nas respostas dos entrevistados. Normalmente, este tipo de entrevista surge após o uso de outros métodos de recolha de informação.

Relativamente à forma como se regista a informação da entrevista poderemos usar o suporte áudio, o vídeo, ou então poderemos fazer notações no decorrer da entrevista. Após o processo de transcrição, um bom método usado para validar a informação recolhida passa pelo envio da transcrição para o entrevistado, de forma a que este proceda às correcções necessárias.


Recursos usados:

Bogdan, R. & Biklen, S. (1994). Investigação Qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora.

Ghiglione, R. & Matalon, B. (2001). O Inquérito: teoria e prática. Oeiras: Celta Editora

2 de maio de 2008

Recolha de Dados - O Questionário



Entre os vários instrumentos usados para a recolha de dados, os questionários são, provavelmente, um dos instrumentos mais usados mundialmente para inquirir pessoas.

Uma primeira questão a colocar será: "Em que situações devo usar este instrumento?" Normalmente associamos o questionário a abordagens quantitativas, onde procuramos testar hipóteses. Contudo, o uso de questionários é um pouco mais abrangente e, como tal, apresenta layouts e organizações diferentes, consoante o tipo de uso que lhe queremos dar.

Ghiglione e Matalon (2001) identificam 4 grandes objectivos no uso de questionários.
1) estimar certas grandezas absolutas, como por exemplo despesas ao longo do ano, percentagem de pessoas que usam um produto, etc;
2) estimar grandezas relativas, como por exemplo fazer estimativas para determinadas proporções da população;
3) descrever uma população ou subpopulação, como por exemplo identificar as características dos leitores dos jornais de uma população que queremos estudar;
4) verificar hipóteses, relacionando duas ou mais variáveis.

Independentemente do uso que lhes queiramos dar, há um aspecto fundamental na construção dos questionários: a formulação das questões. Para Ghiglione e Matalon (2001), qualquer erro ou ambiguidade associados à construção do questionário, levará a conclusões erradas. Assim, é aconselhável que as questões sejam reformuladas de modo a que sejam perfeitamente entendidas pelo inquirido. Contudo, a reformulação está sempre limitada àquilo que queremos analisar em específico. Ainda no que diz respeito à construção das questões, de um modo geral, encontramos dois tipos de questões: abertas e fechadas. Segundo Ghiglione e Matalon (2001), as questões fechadas podem ter várias formas e permitem uma análise estatística dos dados recolhidos. Já o uso de questões abertas obriga à análise de conteúdo, uma tarefa mais trabalhosa do que aquela associada às questões fechadas.

A escolha sobre se devemos ter um questinário com questões abertas, fechadas ou ambas é bastante variada. Esta escolha prende-se com vários aspectos, entre os quais, 1) os objectivos da investigação, 2) a capacidade que temos para fechar as questões, de modo a analisar de forma mais dissecada as variáveis pretendidas; 3) o tipo de impacto que queremos criar sobre o inquirido e a própria lógica do questionário (e.g. no início podemos querer saber qual a propensão que uma pessoa tem para comprar smarties e no final do questionário, após um conjunto de questões sobre este tema pergunta-se novamente qual a propenção de modo a analisar se essa atitude mudou; se usarmos questões abertas no início podemos levar o inquirido a centrar-se nas problemáticas que queremos analisar, mostrando que a sua opinião é importante, para depois passarmos a questões fechadas).

Este último ponto remete-nos para a questão da ordem como colocamos as questões. Como foi focalizado num dos exemplos, a ordem como colocamos as questões pode sugerir diferentes tipos de resposta, logo este deve ser outro aspecto fundamental na construção dos questionários.

A pré-testagem do questionário, apesar de não ser um passo obrigatório, é um estágio muito importante, que permite a validação do instrumento através da reformulação necessária para que se proceda à construção final (mesmo quando estivemos atentos a todos os aspectos da sua construção, referidos anteriormente). A pré-testagem deve ser feita com indivíduos que façam parte da população ou sub-população que queremos analisar, ou então elementos que sejam muito semelhantes.

De facto o questionário tem que ser construído de acordo com o tipo de população que vamos investigar, de modo a que esta seja capaz de compreender cada uma das questões, assim como as questões colocadas não devem suscitar recusas devido ao seu conteúdo, por parte de quem responde.

Para concluir, é necessário mencionar um aspecto já focado: a associação usual que se faz dos questionários à investigação quantitativa. De facto, a recolha de dados de questionários com perguntas fechadas permite uma análise estatística directa das variáveis que pretendemos investigar. Almeida e Freire (2003) referem que podemos encontrar hipóteses dedutivas e indutivas. Aquando da análise sobre os métodos dedutivos e indutivos, concluiu-se que no primeiro caso, e aplicando ao ponto aqui em reflexão, as hipóteses surgem do campo teórico enquanto que no caso das hipóteses indutivas, estas são provenientes da prática diária e da observação da realidade que nos rodeia. Os mesmos autores ainda referem que o nível de concretização das hipóteses ainda se pode dividir em: 1) conceptual (relação entre variáveis ou entre uma ou mais teorias); 2) operativas (quando há indicação das operações necessárias para a sua observação; 3) e estatística (relação esperada em termos estatísticos, que são apresentadas pela hipótese alternativa - aquela que tem a relação que queremos ver confirmada no fenómeno analisado - e pela hipótese nula - aquela que se opõe à hipótese alternativa). Contudo, e como também já foi referido, os questionários não servem apenas para este fim.

Recursos usados:

Guide to the Design of Questionnaires

Almeida, L. & Freire, T. (2003). Metodologia da Investigação em Psicologia e Educação. Braga: Psiquilibrios.

Ghiglione, R. & Matalon, B. (2003). O Inquérito: teoria e prática. Oeiras: Celta Editora